Segunda-feira, Fevereiro 27, 2012

A Obesidade é Culpa Sua


Nessas conversas de família sempre há aquela parte da parentada que passou por uma fase difícil em suas vidas, seja um problema de saúde, um aperto financeiro ou um conflito da própria família. A minha família, por exemplo, tem todos estes casos, e volta e meia ouvimos casos em volta da mesa de jantar. Os que eu mais gosto de ouvir são os da minha avó, justamente pela disparidade de épocas, a dela e a minha, e que as histórias dela são acompanhadas não só por relatos, mas também por fotos.

Um dos aspectos que muito me chamou a atenção foi quando minha avó comentou que refrigerante, na época dela, era “um luxo”. O guaraná era envasado em garrafas de rolhas, pequenas a ponto de mal completarem um copo americano, era carésimo e as crianças ganhavam uma garrafinha cada como presente de Natal. Dada a escassez, tomar guaraná era um exercício de apreciação digno dos vinhos e espumantes finos dos dias de hoje. O esforço pra se obter tal iguaria era bem considerável, para poucos.

Estendendo a curiosidade, perguntei como eram os hábitos alimentares das pessoas na época. Basicamente, as pessoas se concentravam mais nas refeições. Não existia muito o hábito de se comer fora de hora. Alimentos como biscoitos eram em sua maioria caseiros e a qualidade energética era indiscutivelmente inferior, dado que a agricultura contava apenas com a seleção artificial, método este usado até hoje juntamente com a manipulação de clima, solo, genética, etc, etc, etc. Para os gêneros animais, a dificuldade era análoga: cada família criava os próprios animais para o abate e a alimentação era à base de capim para as vacas, sobras de legumes para os frangos e uma massaroca de coisas misturadas para os porcos. Além disso, a quantidade era mais escassa e os métodos de conservação problemáticos: meus avós, por exemplo, só conheceram a geladeira depois de casados, no início da década de 60. Ou seja, comia-se menos e de uma forma mais criteriosa.

Aproveitando o ensejo, perguntei pra vó quantos amigos gordos e obesos ela tinha quando era criança e adolescente. Pensou bem rapidamente e, surpresa com a conclusão, disse: “Nenhum. Eu tinha só uma amiga que era um pouco mais gordinha, mas era pelo porte físico da família dela, mas ela nunca chegou a ser gorda.”. Repeti a pergunta pro meu avô e a resposta foi bem parecida: “No máximo uns barrigudinhos, mas ou era verme ou cerveja”.

Ao contrário deles, a resposta não me surpreendeu. Me parece óbvio que, com a quantidade e qualidade nutritiva de alimentos sempre em alta, facilidade de obtenção, variedade e apelo do paladar, a explosão da produção de alimentos acompanhasse a explosão de sobrepeso e obesidade da população. O engraçado é que toda vez que tento levantar esta questão, surgem as mais variadas oposições, geralmente contrárias, fazendo minha argumentação parecer ridícula e leviana. Vale salientar que acho a maioria delas estúpidas e fora do bom senso. Antes de falar sobre elas, acho interessante divulgar algumas notícias de estatísticas feitas nos últimos anos:

http://saudeweb.com.br/9011/obesidade-morbida-cresce-255-nas-ultimas-decadas/
http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=1937&id_pagina=1
http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/ultimas-noticias/2011/07/28/brasileiros-consomem-mais-de-15-milhoes-de-litros-de-refrigerante-por-dia-aponta-ibge.jhtm
http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia/2011/07/28/ibge-brasileiro-abusa-do-sal-e-consome-pouco-calcio.jhtm
http://www.urbal.piracicaba.sp.gov.br/download/Consumo%20de%20alimentos%20na%20Am%E9rica%20Latina%20e%20na%20Uni%E3o%20Europ%E9ia.pdf

Ouço muito falar da “predisposição genética” dos gordos. A obesidade virou doença. Gordos possuem direito a assento preferencial nos transportes públicos. Intervenções cirúrgicas no trato digestivo viraram corriqueiras, e não necessárias apenas em casos em que há um real distúrbio alimentar no indivíduo. Há até que se ter um certo pudor para tratar a questão, porque, afinal, “os gordos não têm culpa de serem como são”.

Queiram me desculpar as pessoas que defendem esse tipo de idiotice, mas têm sim.

Estamos numa época em que só não sabe aquele que não se interessa em saber. Qualquer pessoa minimamente inteligente sabe o que é bom comer e o que não é, e que o organismo é programado pra estocar energia porque espera-se que numa condição humana natural a escassez de energia irá aparecer. O que chega a ser curioso é a resistência das pessoas de achar que a obesidade virou um “problema normal”.

“Normal” hoje em dia é comer chocolates tão gordurosos e açucarados que uma simples barrinha pode me disparar uma crise de enxaqueca.

“Normal” é comer extrusões de 50 gramas que possuem capacidade energética de substituir refeições inteiras, ocupando muito menos lugar no estômago e, obviamente, enganando o organismo quanto à sensação de saciedade.

“Normal” são redes de restaurantes vendendo sanduíches com 3 hambúrgueres, redes de cinema vendendo pacotes de pipoca de 1000 calorias e copos de refrigerante de 1 litro cada.

“Normal” são os big: big pacotes, big copos, big filés, big pratos, big vasilhas, big embalagens, e as pessoas se esforçando para comer os big e pedindo as coisas ainda mais big.

“Normal” é a preguiça, as várias horas na frente de uma televisão gastando pedaços da vida a fio sem se exercitar e o fricote de não aceitar provar outras comidas que não conhece.

“Normal” é estigmatizar verduras e legumes, preferindo apenas alimentos exageradamente saborosos, sendo que o mecanismo do prazer associado à alimentação serve como estímulo de sobrevivência, que estimulado indevidamente pode desencadear em um distúrbio de ordem psicológica, assim como são os narcóticos, por exemplo.

“Normal” é tomar alguma providência quando a situação já foi longe demais, as roupas ficaram grandes demais, as chacotas frequentes demais e tudo que deveria ser simples ficou difícil demais. E além disso colocar a culpa em tudo menos naquilo que merece ter a culpa, que é você mesmo.

Ou as pessoas regridem naturalmente, ou é bonito se fazer de idiota ou de desinformado. O mais interessante é a quantidade de energia e tempo que alguns gastam defendendo os gordos, sendo que boa educação alimentar e determinação poderiam resolver as coisas facilmente, sendo a via de regra e não a exceção.

Enfim, errados estamos eu e meus avós.

Pense quantas garrafinhas de rolha precisariam pra envasar os 15 milhões de litros de refri que as pessoas consomem neste país todos os dias!

Segunda-feira, Janeiro 09, 2012

O Desapreço da Humanidade Quanto à Música


Já escrevi a respeito desse assunto de maneira menos assertiva, e acho importante retomá-lo agora por ser oportuno.

Numa época em que grande parte da população capitalizada do país desfruta de ampla variedade das mídias disponíveis no mercado, providenciadas pelas chamadas “revoluções digitais”, nunca foi tão fácil obter e ouvir músicas dos mais diferentes gêneros, adjetivos e predicados. Há o chamado sincretismo de estilos, saída encontrada pelos artistas no sentido de tentar trazer algo novo a tudo aquilo que não pode mais ser inovado, justamente pela exaustão de possibilidades, juntando dois estilos de música para dar origem a um terceiro. Tudo que poderia ser inovado nos estilos que conhecemos, salvo poucas exceções, já foi pensado, dominado e publicado. Desses sincretismos, há combinações tão bizarras que o rebento dessa cópula esquisita soa como um experimentalismo pitoresco e pouco divertido, como por exemplo juntar o Folk (estilo regionalista de raiz europeia) com o Heavy Metal. Há quem goste. Eu pelo menos imagino que seja a trilha sonora de um baile de monstros.

Há também aqueles artistas que insistem na sobrevida de um estilo já bem consolidado, lançando títulos que são simplesmente reformulações de nada além de “mais do mesmo”, numa empolgação doentia e forçada, como se a reprise de ideias apresentasse algo quente e revolucionário, como o U2 gosta de fazer. Quase todos seguem a “estrutura verso-refrão”, que é aquela baseada no 4: 4 acordes, estrofes de 4 versos, repetições múltiplas de 4, etc., estrutura essa popularizada por Beatles et al. Claro que a maior parte do universo nem dá bola para estruturação, muito menos pro fato de que a maioria delas usa a mesma cadência tonal, tipo naqueles videozinhos de Youtube em que uma banda toca umas 40 músicas usando os mesmos 4 acordes. O povo gosta mesmo é de “se identificar com a letra”.

O grande problema é que este mesmo povo não sabe mais discernir o que é uma música com qualidade - não confundir com uma música simplesmente bem produzida - de uma música que não presta. Mas a culpa, segundo uma reflexão minha num gradiente totalmente diferente do habitual, não é deste povo.

São dos próprios músicos. E por que?

Acho que a origem de todo o mal começa mais ou menos nos anos 70. O capitalismo alçava voos cada vez mais altos, e grupos dos mais diversos tipos de empresários procuravam seu nicho, e que fosse o mais lucrativo possível. Logo veio o paradigma das gravadoras: os artistas assinavam contratos com grandes selos, se comprometendo a “fazer tantos discos de tempos em tempos”. As gravadoras divulgavam o material, a agenda de shows, os artistas faziam apresentações cada vez maiores e mais espalhafatosas, e todos ganhavam o seu quinhão com isso.

Como em qualquer modelo de negócios, a ganância logo se torna uma obstinação dos empresários, do dinheiro pelo dinheiro, e toda a cadeia do processo passa a adquirir um tom industrial: a música precisa ser acessível, para alcançar o maior número de fãs. A música precisa ser simples e ter partes colantes, para ser lembrada facilmente. A música não deve ser muito comprida - deve ter uns 3 a 4 minutos, no máximo - pra facilitar a veiculação pelas rádios, e assim por diante. O “produto” disso é uma composição desprovida de todo e qualquer sentido artístico, como essas pinturas de supermercado que seus parentes compram baratinho e se orgulham de pendurar na sala, porque “o custo-benefício compensa”. Claro que um tempo depois pode haver a surpresa de se ver uma pintura idêntica à sua novamente à venda no tal supermercado. Bate um remorso desconfortável toda vez que se passa pela pintura, até porque logo seus parentes descobriram que a pintura derrete no calor de dias quentes e o arame que a sustenta na parede foi colocado às pressas, e raramente este quadro fica parado num ângulo reto. Isto é música industrial. Ao reparar melhor, seus problemas lhe saltam às vistas, e o encanto se evanesce, se é que já houve encanto por este tipo de música algum dia.

Steve Jobs me ensinou algo muito forte: as pessoas não sabem o que querem e o que é bom. É preciso que pessoas mais elevadas que a média mostrem o que é bom às demais. Claro que isso não é algo simples.

Não para por aí: há aqueles que confundem arte com entretenimento. Pra mim, é fácil separar na música o que é arte e o que é entretenimento: basta você se lembrar de uma música. Se a lembrança de que você já gostou dela te envergonha, ela não passa de mero entretenimento, possivelmente uma modinha jacu de verão ou de meio de adolescência que irá te perseguir para sempre. Se você se lembra dela com orgulho e sente que irá gostar dela pra sempre, com fãs mais empolgados até tatuando seu brasão em partes vistosas do corpo, possivelmente esta música está próxima da arte. Claro que gosto é relativo, e você pode estar enganado, e eu também, mas este raciocínio funciona bem para a grande maioria dos casos.

Óbvio que eu não poderia deixar de falar dos shows.

Shows de bandas mais próximas de um sentido artístico não são muito grandes. Os organizadores se preocupam com o bem-estar do espectador, em todos os sentidos. Alguns levam isso tão a sério que os shows ocorrem em teatros suntuosos com uma produção espetacular. Os músicos realmente se divertem, apreciam a própria música e dão o melhor de si com devoção e paixão pelo que criaram. Frequentemente se dão a improvisos, deleitando os fãs, inovando ainda mais sobre o material de estúdio, mostrando além do que se mostra na obra gravada. Se perguntam aos músicos se eles não deveriam estar pensando em ganhar mais dinheiro, eles possivelmente mandam o dono da pergunta às favas. Há um sentido muito mais grandioso em se fazer arte: algo que o dinheiro certamente não recompensa. Os músicos saem gratificados, e os fãs com uma lembrança digna de contar para amigos e netos.

Já bandas que perseguem o dinheiro fazem shows com um volume indecente de fãs. Uma experiência num show grande lembra como os seres humanos possuem um temperamento selvagem e egoísta enrustido. Tudo é complexo e regido pelo caos: o aperto é uma constante, o acesso à bens de consumo difícil e com pouca qualidade, o show é difícil de ver porque os músicos ficam minúsculos num palco gigantesco feito pra entreter dezenas de milhares de pessoas. Num grande conjunto, a multidão se estupedece. Tumultos são comuns, assim como o extravio de pertences pessoais. Resta aos músicos conduzir o show numa atmosfera circense, tratando seus expectadores como uma multidão gagá octagenária, bolando solfejos desajeitados para que a multidão, extasiada com a grandiosidade do evento, repita, ou que pelo menos tente. Chega a ser heresia ir a um show desse tamanho e ter a pachorra de dizer que não conseguiu se divertir. Não importa se foi embaixo de uma chuva torrencial. Não importa se o som estava alto demais. Não importa se o ingresso foi caro e a banda tocou muito menos do que o previsto, numa qualidade duvidosa. Criticar chega até a ser caretice. Coisa de gente velha e chata.

E, enquanto isso, os organizadores e músicos amealham sem quinhão em cima de fórmulas prontas. Não é de se estranhar que os músicos se encham depois de certo tempo e as bandas acabem.

Parabéns àqueles que vão a shows em que os músicos tocam seis vezes a mesma música, em duas horas de apresentação. Quero aprender a me divertir com tão pouco como vocês fazem.

Terça-feira, Dezembro 20, 2011

A Lógica Perversa do Funcionalismo Público Brasileiro


Não é de hoje que muitos amigos e conhecidos meus desistem de tentar uma carreira própria de cursos de graduação, como Biologia, por exemplo, para se aventurar pelos vestibulares alternativos dos concursos públicos. As vagas ofertadas oferecem aqueles pacotes paradisíacos de benefícios, altos salários, oportunidades de estudar enquanto trabalha com tudo devidamente pago e oportunidade de se aposentar recebendo o mesmo valor do período em que estava trabalhando, entre muitas outras coisas.

Os cursos preparatórios proliferam, acomunados com o aumento da oferta de vagas nos concursos. O número de candidatos explodiu nos últimos anos, e grande parte dos inscritos perdem meses a fio estudando matérias que normalmente não estão nas grades curriculares de cursos regulares de graduação, como Direito Previdenciário, ou então Administração e Finanças Públicas. Tardes inteiras são colocadas em provas enormes, cuja motivação vem do deslumbre da possibilidade de uma conta bancária gorda a cada mês e uma carreira tranquila.

Depois de passar, tudo é festa: os novos estatutários podem trabalhar apenas seis horas por dia, de 2a a 6a feira, com direito a 30 dias de férias e, ainda para uma parcela seleta deles, um recesso no fim de ano de quase 30 dias, que não necessariamente precisam cair no mesmo dia de férias. É mágica a perspectiva de trabalhar 10 meses por ano.

Para quem já trabalhou com Folhas de Pagamento, sabe que o regime para estatutários é bem diferente das Folhas de Pagamento das empresas. Há rubricas para todo tipo de cargo e função, chegando aos absurdos das gratificações. O cúmulo delas é uma tal de “Gratificação por Frequência”: se o estatutário não falta mais do que 3 dias por ano, recebe um bônus em dinheiro em dezembro de cada ano. Como se já não bastasse ganhar consideravelmente mais que a média brasileira, o estatutário pode se dar ao luxo de faltar ao trabalho injustificadamente, sendo bonificado "se se comportar bem". Praticamente não há punição para eles, porque o processo administrativo para demitir (vulgo “exonerar”) um servidor público é através de um longo e moroso processo administrativo.

Com um festival desse de boas notícias, difícil é acreditar que haja um lado ruim na história, não?

Obviamente, quando há uma euforia, os detalhes mais concretos são difíceis de enxergar. Protegidos por um sistema egoísta e inconsequente de leis, os estatutários se avessam da realidade ao pleitearem ainda aumentos na ordem de vinte e poucos porcento ao ano, e mais benefícios, e mais gratificações. É uma espécie de um Panteão: todas as divindades, maiores ou menores, consideram que o Estado deve lhes prover cada vez mais e mais mimos pela sua simples natureza de intocáveis, e não por mérito ou qualquer outra coisa que o valha.

Essa série de caprichos, no fim das contas, deve ser sustentada por alguém. E este alguém é fácil de saber.

São todo o resto das pessoas que trabalham no país. Empresários como eu, assalariados, autônomos, e até mesmo os informais. Isto parece papo de revista de circulação nacional, mas há uma boa razão pra que se insista nisso: temos uma capacidade de mudar a realidade como queremos, mas não sabemos disso muito bem. E há aqueles que fazem questão que não saibamos.

Ler relatórios e esquemas publicados pelo governo é um exercício penoso, para poucos. Infelizmente, são poucos aqueles que se organizam para promover uma filtragem daquilo tudo que o governo publica. A imprensa em geral se organiza, dividindo esforços para pitonisar os dados, mas a informação não é objetiva e é divulgada em matérias esparsas.

Um trabalhador com carteira assinada está protegido apenas pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), que garante um salário mínimo, um tal de Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, e ainda obriga o trabalhador a pagar de volta para o governo um imposto que aumenta de acordo com o valor do salário pago, para depois devolver uma parte deste imposto para o trabalhador. Como se não bastasse isso, para se aposentar, o trabalhador precisa pagar 11% daquilo que ganha durante mais de 30 anos, e com o risco de se aposentar com um ordenado final bem mais baixo do que o salário que tinha quando empregado. Isso faz com que o trabalhador tenha que pagar mais um plano de previdência pra se aposentar dignamente.

Para empresários, o esquema é muito mais cruel: o governo cobra 20% de INSS sobre tudo o que a empresa paga aos seus funcionários, mais aquela contribuição de 2,5% para autarquias ligadas ao serviço social. Ainda vou fazer um texto sobre elas no futuro. É bom ressaltar que há outros impostos, como aqueles que cobram quase 20% do valor de cada nota fiscal, desde uma tal de "Contribuição Social pelo Lucro" até uma tal de COFINS (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social), este último não deixando de ser redundante, pois as empresas já pagam INSS.

Ainda nem falei de impostos que todos devem pagar, como o ICMS (imposto pago pra cada produto poder circular entre fornecedores e/ou consumidor final) e o IPI (imposto pago para cada produto fabricado no Brasil). Esses são aqueles impostos que não vemos. Uma porcentagem nada desprezível de cada produto vendido no país é imposto.

E pra onde vai todo esse dinheiro?

Pra sustentar as vidinhas perfeitas dos servidores públicos, obviamente. Uma parte delas, claro, é desviada, mas vamos nos concentrar no foco.

Com a vida concentrada no próprio umbigo, o brasileiro não se importa se o governo gasta absurdos com salários de servidores públicos. Afinal, o problema não é deles. São só os políticos que agem errado. O problema é unicamente a corrupção, e nada mais.

Apoiar ferrenhamente concursos públicos é, de certa forma, ser conivente com essa porcaria de Estado vigente que temos aí.

Quarta-feira, Dezembro 14, 2011

Meras Tecnicalidades

Nos últimos anos tive a oportunidade de trabalhar com sistemas de informação para tribunais de justiça. Com o advento dos processos eletrônicos no Brasil, abriu-se oportunidade para que empresas de informática oferecessem, como terceiras, sistemas que, além de eliminar a necessidade de papel, fariam com que os processos andassem mais rapidamente. No jovem Cigano e em mais algumas pessoas, poderia vir daí uma esperança de que o Judiciário poderia melhorar substancialmente através de um sistema benfeito, com uma implementação consistente. Foi assim que comecei a ler diariamente notícias sobre o Judiciário e me interessei sobre o universo das leis, de como são interpretadas e de como os processos são julgados.

Como em qualquer área, o modelo teórico inicialmente é belo e bem elaborado, exaltando as melhores práticas da virtude, da ordem, da paz e do progresso, objetivando uma sociedade ideal para todos. Esta visão virginal é facilmente superada quando começamos a conhecer pessoas envolvidas com a esfera do Direito (cujo nome chega a ter uma conotação até irônica neste ponto): de graduandos em Direito a promotores, passando por defensores e procuradores, todos eles aprendem o princípio fundamental que divisa um profissional de sucesso (aquele que ganha um bom dinheiro com isso) do profissional bem intencionado (aquele trabalha em serviço do real progresso da humanidade).

O princípio, claramente, não é o de conhecer as leis e fazer elas valerem, e sim o de saber quais são suas fraturas.

Todo o juízo de valores de uma pessoa vindo da sua família, das pessoas com quem convive e do seu senso natural de certo e errado deve ser distorcido em algum momento durante a graduação em Direito. Alguns mais, outros menos. Tenho vários amigos formados em Direito. Os que ainda preservaram alguma decência após terminarem o curso sabem dizer “não” a clientes que não merecem ser defendidos. Já os que não preservam defendem que um bom advogado é aquele que melhor sabe interpretar a lei, transformando uma causa em um jogo estéril de ganhar-perder, cujas bases da vitória a todo custo estão entranhadas em tecnicalidades.

Meras tecnicalidades.

Tive a oportunidade de conhecer uma advogada que já defendeu um traficante de drogas. Possivelmente defendeu porque precisava de dinheiro, e isso, na ponderação dela, já era motivo bom o suficiente pra encarar a empreitada. Ela conseguiu a absolvição do cliente, porque o Ministério Público “não elaborou bem a base do processo, o que fez o Juiz dar um parecer favorável ao réu, de que o processo era ‘insuficiente’.”.

Insuficiente. Incompleto. Inválido. Inapto. São essas algumas expressões que fortalecem a argumentação dessas pessoas que trabalham pelo desserviço que vitimam o país.

Esta semana o ilustríssimo senhor Presidente do STF Cezar Peluso deu parecer favorável a um senador inelegível (reforce-se aqui, em tempo recorde) contrariando uma lei de iniciativa popular por uma dessas tecnicalidades. A mais alta corte do país se lixa para a vontade do povo que o sustenta, baseada em brechas e interpretações das maiores sortes de criatividade possível. Isolados do resto do país (e, possivelmente, do mundo) os 11 ministros do Supremo deliberam sobre o que querem, quando querem, anestesiados pelos maiores salários do país e interessados apenas no fiel cumprimento das estéticas e protocolos jurídicos da maneira mais caprichosa e pragmática possível. 

Por sinal, o ministro Peluso foi o mesmo que quis desqualificar a Corregedoria Nacional de Justiça algum tempo atrás, sendo este órgão o responsável por fiscalizar a atividade dos magistrados do país. Afinal, seres tão virtuosos como magistrados não precisam ser fiscalizados. Devemos tratá-los como seres divinos, e temê-los por possuírem poderes de moldar a realidade como bem quiserem.

Toda esperança se abala desta forma.

Luiz Fux era uma esperança. Um inovador no Superior Tribunal de Justiça. Um cara com ideias legais. Deu um parecer idiota desqualificando a Ficha Limpa. Nada mais revoltante. Depois ele voltou atrás, porque, óbvio, pegou mal. Mas se estivesse em bom juízo, não teria mudado de ideia.

Joaquim Barbosa, o antes admirável relator do Mensalão, faz o processo capengar com várias licenças médicas e aparições em bares com amigos em aparente boa forma. O processo já completou 4 anos em Agosto, e agora há o risco de outra merda acontecer:

Outro ministro, Ricardo Lewandowski, o revisor do processo do Mensalão, sinalizou que as penas podem prescrever - ou em bom português, que as penas deixam de valer após cinco anos, antes mesmo até do processo terminar. Ou seja, todo o trabalho de processar 38 pessoas vai ser em vão se até Agosto o julgamento não terminar. Multiplique 26 mil reais por 11 e depois por 48. É mais ou menos isso que vai para o lixo.

A coisa pegou tão mal que o ilustríssimo Peluso tomou uma providência pra que o processo corra mais rápido, só agora, faltando pouco mais de 8 meses pro processo se tornar nulo. 

E sabe o que vai acontecer quando sair a sentença? Aposto que nada. Afinal, os advogados dos 38 acusados vão fazer o possível pra apelar da decisão (eles vão dar um jeito, como sempre acontece), achando as mais novas brechas na lei para evitar as condenações.

E tratando argumentos acusatórios como meras tecnicalidades.

Terça-feira, Dezembro 13, 2011

O Que Não Concordo na Corrida dos Ratos

Alguns devem saber bem o que é o conceito da Corrida dos Ratos: ele fez uma famosa aparição do livro Pai Rico, Pai Pobre, de Robert Kiyosaki e Sharon Lechter. Vou reproduzir um resumo de um site (http://www.amigorico.org/blog/2009/11/12/a-corrida-dos-ratos-resumo-do-livro-pai-rico-pai-pobre-parte-2-de-4/) pra nos situarmos: 

Se você observar a vida das pessoas de instrução média, trabalhadoras, você verá uma trajetória semelhante:

A criança nasce e vai para a escola. Os pais se orgulham porque o filho se destaca, tira notas boas e consegue entrar na faculdade. O filho se forma e, então, faz exatamente o que estava determinado: procura um emprego.

O filho começa a ganhar dinheiro, chega um monte de cartões de crédito e começam as compras. Com dinheiro para torrar, o filho vai aos mesmos lugares aonde vão os jovens, conhece alguém, namora e, às vezes, casa.

A vida é então maravilhosa, marido e mulher trabalham: dois salários são uma bênção. Eles se sentem bem-sucedidos, seu futuro é brilhante, e eles decidem comprar uma casa, um carro, uma televisão, tirar férias e ter filhos. A necessidade de dinheiro é imensa!

O feliz casal conclui que suas carreiras são de maior importância e começa a trabalhar, cada vez mais, para conseguir promoções e aumentos. A renda aumenta e vem outro filho… e a necessidade de uma casa maior. Eles trabalham ainda mais arduamente, tornam-se funcionários melhores. Voltam a estudar para obter especialização e ganhar mais dinheiro.

Talvez arrumem mais um emprego.

Suas rendas crescem, mas a alíquota do imposto de renda, o imposto predial da casa maior e outros impostos também crescem. Eles olham para aquele contra-cheque alto e se perguntam: para onde todo esse dinheiro vai?

O feliz casal está agora preso na armadilha da “Corrida dos Ratos” pelo resto de seus dias. Eles trabalham para os donos da empresa aonde trabalham, para o governo, quando pagam o impostos, e para o banco, quando pagam cartões de crédito e financiamentos. Trabalham e trabalham, mas não saem do lugar.

Esta é a “Corrida dos Ratos”, segundo Kiyosaki. A solução para sair da “Corrida dos Ratos”? É simples: invista na sua alfabetização financeira. 

É simples, não? Você se alfabetiza financeiramente e tudo vai ficar bem. Siga tranquilamente o roteiro de vida que todo mundo quer que você siga, leia um monte de best sellers sobre educação financeira, faça uma operação de guerra para sanear as contas que o êxito é certo. Os autores garantem, senão não seriam best sellers, certo? Mas, peraí:

Se somos livres em nossas escolhas, por que temos necessariamente que entrar na Corrida dos Ratos?

É simples, também: porque este é o roteiro de todo homem de bem. Um roteiro, digo eu, imposto por uma sociedade. A coisa é tão séria que políticos não se elegem se não forem casados e com filhos. Atores e atrizes perdem rendimentos, contratos, chances de atuação em novelas e demais oportunidades de trabalho quando sai um furo nas melhores publicações de fofoca indicando algum desvio de conduta. Figuras públicas, em sua inegável natureza humana, são desmerecidas pelos desvios naturais que regem a nossa natureza primal e instintiva, retratados em denúncias de abuso sexual, adultérios e festas com mulheres nuas, anulando na quase totalidade uma vida de subserviência ao dever de melhorar a sociedade.

Disse hoje um amigo meu que, apesar de abominável, a hipocrisia é tão atraente quanto necessária. E eu concordo. É isto ou viver à margem do respeito e consideração dos demais.

Em plena época da exaltação das liberdades individuais, temos necessariamente que seguir o roteiro da vida de nossos pais para sermos felizes?

Tenho alguns medos na vida. Um deles é de assistir a uma reprise de cada dia por anos a fio, e de repente me pegar desprevenido, já velho e cansado, percebendo que a vida passou “depressa demais” e que muito do que eu quis fazer eu já não terei oportunidade, porque uma série de impedimentos freia meus anseios. Impedimentos estes vindos da cartilha de todo homem de bem.

Homens e mulheres que conquistam minha admiração são justamente aqueles que quebram o protocolo e perseguem a rabeira de seus sonhos obstinadamente.

Você não estuda pra ter um emprego. Estuda pra aprender a fazer algo que você ame, dia após dia, sem se cansar. Ninguém vive bem fazendo algo que não gosta.

Você não casa pra ter mais grana, pra ter plano de saúde, pra ficar mais fácil de comprar uma casa, pra abarrotar a casa de presentes da festa de casamento e encher os bolsos cortando gravata e leiloando sapatinho de chocolate. Você casa pra construir um legado abaixo de você, pra ser feliz na vida a dois, dividindo o que é bom e o que é ruim. Os filhos refletem o que é o relacionamento dos pais.

Você não vive pra viver o que os outros querem. Você vive pra viver o que você quer.

Não me diga que o roteiro da Corrida dos Ratos é tudo o que você sonhou. Se você se conforma com isso, alguém está ganhando com este modelo de vida que está aí. Pense um pouco e você vai ver que o moralista que ri à toa é justamente aquele que enche os bolsos com a receita da vida perfeita.

A Corrida dos Ratos me deixou uma marca funda: a certeza do que eu nunca quero ser.

Sábado, Dezembro 10, 2011

Bem Melhor


2a ressurreição do Blog.

E por que, Cigano?

Bom, agora mais do que nunca se faz necessário. Numa primeira fase eu abri o blog pra colocar a público meus problemas. O que de certa forma me trouxe ainda mais problemas, mas foi uma bela lição de como se lidar com pessoas. Depois comecei a colocar umas coisas mais light, mas menos coisas da minha autoria, mesmo porque meu tempo pra escrever tinha acabado, só que tudo sem um objetivo. Mas e agora?

Agora é aquela época que a gente relê tudo o que foi postado, apaga o que não gosta mais de ler e altera aquilo que é interessante manter. Quer dizer, eu achei quase tudo uma bela merda, mas vou manter assim mesmo. Várias passagens são pontos chave que é bom recordar de vez em quando. A renovação é interessante.

Agora que o Blogger tem uma interface mais bacaninha, não preciso ficar me matando pra escrever template de blog. Escolhi um pronto, e é isso aí. Coloquei mais uns bagulhos que achei interessante e agora vou voltar a usar o espaço pra centralizar as coisas que eu ando produzindo, e tal.

Falando em coisas que eu ando produzindo, vou colocar uma música que escrevi uns 90% e gosto de ouvir sempre. É bem do jeito que eu gosto: comprida, complexa, pesada e prog. Logo logo eu gravo uma amostra dos vocais pra vocês.

Transtorno de Indolência Instrumental

Sexta-feira, Fevereiro 25, 2011

Rapidinha


Ontem, minha esposa e eu estávamos sentados na sala, falando das muitas coisas da vida. Falávamos de viver ou morrer. Então, eu lhe disse:

- Nunca me deixe viver em estado vegetativo, dependendo somente de uma máquina e líquidos. Se você me vir nesse estado, desligue tudo o que me mantém vivo, por favor!

Ela se levantou, desligou a televisão, o computador, o ventilador e jogou minha cerveja fora.

Não é uma filha da Puta?

(Autor desconhecido)

Sábado, Junho 26, 2010

11 expressões usadas pelas mulheres e seus reais significados:

1 - "Certo": Esta é a palavra que as mulheres usam para encerrar uma discussão quando elas estão certas e você precisa se calar.

2 - "5 minutos": Se ela está se arrumando significa meia hora. "5 minutos" só são cinco minutos se esse for o prazo que ela te deu para ver o futebol antes de ajudar nas tarefas domésticas.

3 - "Nada": Esta é a calmaria antes da tempestade. Significa que ALGO está acontecendo e que você deve ficar atento. Discussões que começam em "Nada" normalmente terminam em "Certo".

4 - "Você que sabe": É um desafio, não uma permissão. Ela está te desafiando, e nessa hora você tem que saber o que ela quer... e não diga que também não sabe!

5 - Suspiro ALTO: Não é realmente uma palavra, é uma declaração não-verbal que frequentemente confunde os homens. Um suspiro alto significa que ela pensa que você é um idiota e que ela está imaginando porque ela está perdendo tempo parada ali discutindo com você sobre "Nada".

6 - "Tudo bem": Uma das mais perigosas expressões ditas por uma mulher. "Tudo bem" significa que ela quer pensar muito bem antes de decidir como e quando você vai pagar por sua mancada.

7 - "Obrigada": Uma mulher está agradecendo, não questione, nem desmaie. Apenas diga "por nada". Uma colocação pessoal: é verdade, a menos que ela diga "MUITO obrigada" - isso é PURO SARCASMO e ela não está agradecendo por coisa nenhuma. Nesse caso, NÃO diga "por nada". Isso apenas provocará o "Esquece".

8 - "Esquece": É uma mulher dizendo "FODA-SE!".

9 - "Deixa pra lá, EU resolvo": Outra expressão perigosa, significando que uma mulher disse várias vezes para um homem fazer algo, mas agora está fazendo ela mesma. Isso resultará no homem perguntando "o que aconteceu?". Para a resposta da mulher, consulte o item 3.

10 - "Precisamos conversar!": Fodeu!, você está a 30 segundos de levar um pé na bunda. Ou menos.

11 - "Sabe, eu estive pensando...": Esta expressão até parece inofensiva, mas usualmente precede os Quatro Cavaleiros do Apocalipse...