A Obesidade é Culpa Sua
Nessas conversas de família sempre há aquela parte da parentada que passou por uma fase difícil em suas vidas, seja um problema de saúde, um aperto financeiro ou um conflito da própria família. A minha família, por exemplo, tem todos estes casos, e volta e meia ouvimos casos em volta da mesa de jantar. Os que eu mais gosto de ouvir são os da minha avó, justamente pela disparidade de épocas, a dela e a minha, e que as histórias dela são acompanhadas não só por relatos, mas também por fotos.
Um dos aspectos que muito me chamou a atenção foi quando minha avó comentou que refrigerante, na época dela, era “um luxo”. O guaraná era envasado em garrafas de rolhas, pequenas a ponto de mal completarem um copo americano, era carésimo e as crianças ganhavam uma garrafinha cada como presente de Natal. Dada a escassez, tomar guaraná era um exercício de apreciação digno dos vinhos e espumantes finos dos dias de hoje. O esforço pra se obter tal iguaria era bem considerável, para poucos.
Estendendo a curiosidade, perguntei como eram os hábitos alimentares das pessoas na época. Basicamente, as pessoas se concentravam mais nas refeições. Não existia muito o hábito de se comer fora de hora. Alimentos como biscoitos eram em sua maioria caseiros e a qualidade energética era indiscutivelmente inferior, dado que a agricultura contava apenas com a seleção artificial, método este usado até hoje juntamente com a manipulação de clima, solo, genética, etc, etc, etc. Para os gêneros animais, a dificuldade era análoga: cada família criava os próprios animais para o abate e a alimentação era à base de capim para as vacas, sobras de legumes para os frangos e uma massaroca de coisas misturadas para os porcos. Além disso, a quantidade era mais escassa e os métodos de conservação problemáticos: meus avós, por exemplo, só conheceram a geladeira depois de casados, no início da década de 60. Ou seja, comia-se menos e de uma forma mais criteriosa.
Aproveitando o ensejo, perguntei pra vó quantos amigos gordos e obesos ela tinha quando era criança e adolescente. Pensou bem rapidamente e, surpresa com a conclusão, disse: “Nenhum. Eu tinha só uma amiga que era um pouco mais gordinha, mas era pelo porte físico da família dela, mas ela nunca chegou a ser gorda.”. Repeti a pergunta pro meu avô e a resposta foi bem parecida: “No máximo uns barrigudinhos, mas ou era verme ou cerveja”.
Ao contrário deles, a resposta não me surpreendeu. Me parece óbvio que, com a quantidade e qualidade nutritiva de alimentos sempre em alta, facilidade de obtenção, variedade e apelo do paladar, a explosão da produção de alimentos acompanhasse a explosão de sobrepeso e obesidade da população. O engraçado é que toda vez que tento levantar esta questão, surgem as mais variadas oposições, geralmente contrárias, fazendo minha argumentação parecer ridícula e leviana. Vale salientar que acho a maioria delas estúpidas e fora do bom senso. Antes de falar sobre elas, acho interessante divulgar algumas notícias de estatísticas feitas nos últimos anos:
http://saudeweb.com.br/9011/obesidade-morbida-cresce-255-nas-ultimas-decadas/
http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=1937&id_pagina=1
http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/ultimas-noticias/2011/07/28/brasileiros-consomem-mais-de-15-milhoes-de-litros-de-refrigerante-por-dia-aponta-ibge.jhtm
http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia/2011/07/28/ibge-brasileiro-abusa-do-sal-e-consome-pouco-calcio.jhtm
http://www.urbal.piracicaba.sp.gov.br/download/Consumo%20de%20alimentos%20na%20Am%E9rica%20Latina%20e%20na%20Uni%E3o%20Europ%E9ia.pdf
Ouço muito falar da “predisposição genética” dos gordos. A obesidade virou doença. Gordos possuem direito a assento preferencial nos transportes públicos. Intervenções cirúrgicas no trato digestivo viraram corriqueiras, e não necessárias apenas em casos em que há um real distúrbio alimentar no indivíduo. Há até que se ter um certo pudor para tratar a questão, porque, afinal, “os gordos não têm culpa de serem como são”.
Queiram me desculpar as pessoas que defendem esse tipo de idiotice, mas têm sim.
Estamos numa época em que só não sabe aquele que não se interessa em saber. Qualquer pessoa minimamente inteligente sabe o que é bom comer e o que não é, e que o organismo é programado pra estocar energia porque espera-se que numa condição humana natural a escassez de energia irá aparecer. O que chega a ser curioso é a resistência das pessoas de achar que a obesidade virou um “problema normal”.
“Normal” hoje em dia é comer chocolates tão gordurosos e açucarados que uma simples barrinha pode me disparar uma crise de enxaqueca.
“Normal” é comer extrusões de 50 gramas que possuem capacidade energética de substituir refeições inteiras, ocupando muito menos lugar no estômago e, obviamente, enganando o organismo quanto à sensação de saciedade.
“Normal” são redes de restaurantes vendendo sanduíches com 3 hambúrgueres, redes de cinema vendendo pacotes de pipoca de 1000 calorias e copos de refrigerante de 1 litro cada.
“Normal” são os big: big pacotes, big copos, big filés, big pratos, big vasilhas, big embalagens, e as pessoas se esforçando para comer os big e pedindo as coisas ainda mais big.
“Normal” é a preguiça, as várias horas na frente de uma televisão gastando pedaços da vida a fio sem se exercitar e o fricote de não aceitar provar outras comidas que não conhece.
“Normal” é estigmatizar verduras e legumes, preferindo apenas alimentos exageradamente saborosos, sendo que o mecanismo do prazer associado à alimentação serve como estímulo de sobrevivência, que estimulado indevidamente pode desencadear em um distúrbio de ordem psicológica, assim como são os narcóticos, por exemplo.
“Normal” é tomar alguma providência quando a situação já foi longe demais, as roupas ficaram grandes demais, as chacotas frequentes demais e tudo que deveria ser simples ficou difícil demais. E além disso colocar a culpa em tudo menos naquilo que merece ter a culpa, que é você mesmo.
Ou as pessoas regridem naturalmente, ou é bonito se fazer de idiota ou de desinformado. O mais interessante é a quantidade de energia e tempo que alguns gastam defendendo os gordos, sendo que boa educação alimentar e determinação poderiam resolver as coisas facilmente, sendo a via de regra e não a exceção.
Enfim, errados estamos eu e meus avós.
Pense quantas garrafinhas de rolha precisariam pra envasar os 15 milhões de litros de refri que as pessoas consomem neste país todos os dias!
