Terça-feira, Dezembro 13, 2011

O Que Não Concordo na Corrida dos Ratos

Alguns devem saber bem o que é o conceito da Corrida dos Ratos: ele fez uma famosa aparição do livro Pai Rico, Pai Pobre, de Robert Kiyosaki e Sharon Lechter. Vou reproduzir um resumo de um site (http://www.amigorico.org/blog/2009/11/12/a-corrida-dos-ratos-resumo-do-livro-pai-rico-pai-pobre-parte-2-de-4/) pra nos situarmos: 

Se você observar a vida das pessoas de instrução média, trabalhadoras, você verá uma trajetória semelhante:

A criança nasce e vai para a escola. Os pais se orgulham porque o filho se destaca, tira notas boas e consegue entrar na faculdade. O filho se forma e, então, faz exatamente o que estava determinado: procura um emprego.

O filho começa a ganhar dinheiro, chega um monte de cartões de crédito e começam as compras. Com dinheiro para torrar, o filho vai aos mesmos lugares aonde vão os jovens, conhece alguém, namora e, às vezes, casa.

A vida é então maravilhosa, marido e mulher trabalham: dois salários são uma bênção. Eles se sentem bem-sucedidos, seu futuro é brilhante, e eles decidem comprar uma casa, um carro, uma televisão, tirar férias e ter filhos. A necessidade de dinheiro é imensa!

O feliz casal conclui que suas carreiras são de maior importância e começa a trabalhar, cada vez mais, para conseguir promoções e aumentos. A renda aumenta e vem outro filho… e a necessidade de uma casa maior. Eles trabalham ainda mais arduamente, tornam-se funcionários melhores. Voltam a estudar para obter especialização e ganhar mais dinheiro.

Talvez arrumem mais um emprego.

Suas rendas crescem, mas a alíquota do imposto de renda, o imposto predial da casa maior e outros impostos também crescem. Eles olham para aquele contra-cheque alto e se perguntam: para onde todo esse dinheiro vai?

O feliz casal está agora preso na armadilha da “Corrida dos Ratos” pelo resto de seus dias. Eles trabalham para os donos da empresa aonde trabalham, para o governo, quando pagam o impostos, e para o banco, quando pagam cartões de crédito e financiamentos. Trabalham e trabalham, mas não saem do lugar.

Esta é a “Corrida dos Ratos”, segundo Kiyosaki. A solução para sair da “Corrida dos Ratos”? É simples: invista na sua alfabetização financeira. 

É simples, não? Você se alfabetiza financeiramente e tudo vai ficar bem. Siga tranquilamente o roteiro de vida que todo mundo quer que você siga, leia um monte de best sellers sobre educação financeira, faça uma operação de guerra para sanear as contas que o êxito é certo. Os autores garantem, senão não seriam best sellers, certo? Mas, peraí:

Se somos livres em nossas escolhas, por que temos necessariamente que entrar na Corrida dos Ratos?

É simples, também: porque este é o roteiro de todo homem de bem. Um roteiro, digo eu, imposto por uma sociedade. A coisa é tão séria que políticos não se elegem se não forem casados e com filhos. Atores e atrizes perdem rendimentos, contratos, chances de atuação em novelas e demais oportunidades de trabalho quando sai um furo nas melhores publicações de fofoca indicando algum desvio de conduta. Figuras públicas, em sua inegável natureza humana, são desmerecidas pelos desvios naturais que regem a nossa natureza primal e instintiva, retratados em denúncias de abuso sexual, adultérios e festas com mulheres nuas, anulando na quase totalidade uma vida de subserviência ao dever de melhorar a sociedade.

Disse hoje um amigo meu que, apesar de abominável, a hipocrisia é tão atraente quanto necessária. E eu concordo. É isto ou viver à margem do respeito e consideração dos demais.

Em plena época da exaltação das liberdades individuais, temos necessariamente que seguir o roteiro da vida de nossos pais para sermos felizes?

Tenho alguns medos na vida. Um deles é de assistir a uma reprise de cada dia por anos a fio, e de repente me pegar desprevenido, já velho e cansado, percebendo que a vida passou “depressa demais” e que muito do que eu quis fazer eu já não terei oportunidade, porque uma série de impedimentos freia meus anseios. Impedimentos estes vindos da cartilha de todo homem de bem.

Homens e mulheres que conquistam minha admiração são justamente aqueles que quebram o protocolo e perseguem a rabeira de seus sonhos obstinadamente.

Você não estuda pra ter um emprego. Estuda pra aprender a fazer algo que você ame, dia após dia, sem se cansar. Ninguém vive bem fazendo algo que não gosta.

Você não casa pra ter mais grana, pra ter plano de saúde, pra ficar mais fácil de comprar uma casa, pra abarrotar a casa de presentes da festa de casamento e encher os bolsos cortando gravata e leiloando sapatinho de chocolate. Você casa pra construir um legado abaixo de você, pra ser feliz na vida a dois, dividindo o que é bom e o que é ruim. Os filhos refletem o que é o relacionamento dos pais.

Você não vive pra viver o que os outros querem. Você vive pra viver o que você quer.

Não me diga que o roteiro da Corrida dos Ratos é tudo o que você sonhou. Se você se conforma com isso, alguém está ganhando com este modelo de vida que está aí. Pense um pouco e você vai ver que o moralista que ri à toa é justamente aquele que enche os bolsos com a receita da vida perfeita.

A Corrida dos Ratos me deixou uma marca funda: a certeza do que eu nunca quero ser.

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