O Desapreço da Humanidade Quanto à Música
Já escrevi a respeito desse assunto de maneira menos assertiva, e acho importante retomá-lo agora por ser oportuno.
Numa época em que grande parte da população capitalizada do país desfruta de ampla variedade das mídias disponíveis no mercado, providenciadas pelas chamadas “revoluções digitais”, nunca foi tão fácil obter e ouvir músicas dos mais diferentes gêneros, adjetivos e predicados. Há o chamado sincretismo de estilos, saída encontrada pelos artistas no sentido de tentar trazer algo novo a tudo aquilo que não pode mais ser inovado, justamente pela exaustão de possibilidades, juntando dois estilos de música para dar origem a um terceiro. Tudo que poderia ser inovado nos estilos que conhecemos, salvo poucas exceções, já foi pensado, dominado e publicado. Desses sincretismos, há combinações tão bizarras que o rebento dessa cópula esquisita soa como um experimentalismo pitoresco e pouco divertido, como por exemplo juntar o Folk (estilo regionalista de raiz europeia) com o Heavy Metal. Há quem goste. Eu pelo menos imagino que seja a trilha sonora de um baile de monstros.
Há também aqueles artistas que insistem na sobrevida de um estilo já bem consolidado, lançando títulos que são simplesmente reformulações de nada além de “mais do mesmo”, numa empolgação doentia e forçada, como se a reprise de ideias apresentasse algo quente e revolucionário, como o U2 gosta de fazer. Quase todos seguem a “estrutura verso-refrão”, que é aquela baseada no 4: 4 acordes, estrofes de 4 versos, repetições múltiplas de 4, etc., estrutura essa popularizada por Beatles et al. Claro que a maior parte do universo nem dá bola para estruturação, muito menos pro fato de que a maioria delas usa a mesma cadência tonal, tipo naqueles videozinhos de Youtube em que uma banda toca umas 40 músicas usando os mesmos 4 acordes. O povo gosta mesmo é de “se identificar com a letra”.
O grande problema é que este mesmo povo não sabe mais discernir o que é uma música com qualidade - não confundir com uma música simplesmente bem produzida - de uma música que não presta. Mas a culpa, segundo uma reflexão minha num gradiente totalmente diferente do habitual, não é deste povo.
São dos próprios músicos. E por que?
Acho que a origem de todo o mal começa mais ou menos nos anos 70. O capitalismo alçava voos cada vez mais altos, e grupos dos mais diversos tipos de empresários procuravam seu nicho, e que fosse o mais lucrativo possível. Logo veio o paradigma das gravadoras: os artistas assinavam contratos com grandes selos, se comprometendo a “fazer tantos discos de tempos em tempos”. As gravadoras divulgavam o material, a agenda de shows, os artistas faziam apresentações cada vez maiores e mais espalhafatosas, e todos ganhavam o seu quinhão com isso.
Como em qualquer modelo de negócios, a ganância logo se torna uma obstinação dos empresários, do dinheiro pelo dinheiro, e toda a cadeia do processo passa a adquirir um tom industrial: a música precisa ser acessível, para alcançar o maior número de fãs. A música precisa ser simples e ter partes colantes, para ser lembrada facilmente. A música não deve ser muito comprida - deve ter uns 3 a 4 minutos, no máximo - pra facilitar a veiculação pelas rádios, e assim por diante. O “produto” disso é uma composição desprovida de todo e qualquer sentido artístico, como essas pinturas de supermercado que seus parentes compram baratinho e se orgulham de pendurar na sala, porque “o custo-benefício compensa”. Claro que um tempo depois pode haver a surpresa de se ver uma pintura idêntica à sua novamente à venda no tal supermercado. Bate um remorso desconfortável toda vez que se passa pela pintura, até porque logo seus parentes descobriram que a pintura derrete no calor de dias quentes e o arame que a sustenta na parede foi colocado às pressas, e raramente este quadro fica parado num ângulo reto. Isto é música industrial. Ao reparar melhor, seus problemas lhe saltam às vistas, e o encanto se evanesce, se é que já houve encanto por este tipo de música algum dia.
Steve Jobs me ensinou algo muito forte: as pessoas não sabem o que querem e o que é bom. É preciso que pessoas mais elevadas que a média mostrem o que é bom às demais. Claro que isso não é algo simples.
Não para por aí: há aqueles que confundem arte com entretenimento. Pra mim, é fácil separar na música o que é arte e o que é entretenimento: basta você se lembrar de uma música. Se a lembrança de que você já gostou dela te envergonha, ela não passa de mero entretenimento, possivelmente uma modinha jacu de verão ou de meio de adolescência que irá te perseguir para sempre. Se você se lembra dela com orgulho e sente que irá gostar dela pra sempre, com fãs mais empolgados até tatuando seu brasão em partes vistosas do corpo, possivelmente esta música está próxima da arte. Claro que gosto é relativo, e você pode estar enganado, e eu também, mas este raciocínio funciona bem para a grande maioria dos casos.
Óbvio que eu não poderia deixar de falar dos shows.
Shows de bandas mais próximas de um sentido artístico não são muito grandes. Os organizadores se preocupam com o bem-estar do espectador, em todos os sentidos. Alguns levam isso tão a sério que os shows ocorrem em teatros suntuosos com uma produção espetacular. Os músicos realmente se divertem, apreciam a própria música e dão o melhor de si com devoção e paixão pelo que criaram. Frequentemente se dão a improvisos, deleitando os fãs, inovando ainda mais sobre o material de estúdio, mostrando além do que se mostra na obra gravada. Se perguntam aos músicos se eles não deveriam estar pensando em ganhar mais dinheiro, eles possivelmente mandam o dono da pergunta às favas. Há um sentido muito mais grandioso em se fazer arte: algo que o dinheiro certamente não recompensa. Os músicos saem gratificados, e os fãs com uma lembrança digna de contar para amigos e netos.
Já bandas que perseguem o dinheiro fazem shows com um volume indecente de fãs. Uma experiência num show grande lembra como os seres humanos possuem um temperamento selvagem e egoísta enrustido. Tudo é complexo e regido pelo caos: o aperto é uma constante, o acesso à bens de consumo difícil e com pouca qualidade, o show é difícil de ver porque os músicos ficam minúsculos num palco gigantesco feito pra entreter dezenas de milhares de pessoas. Num grande conjunto, a multidão se estupedece. Tumultos são comuns, assim como o extravio de pertences pessoais. Resta aos músicos conduzir o show numa atmosfera circense, tratando seus expectadores como uma multidão gagá octagenária, bolando solfejos desajeitados para que a multidão, extasiada com a grandiosidade do evento, repita, ou que pelo menos tente. Chega a ser heresia ir a um show desse tamanho e ter a pachorra de dizer que não conseguiu se divertir. Não importa se foi embaixo de uma chuva torrencial. Não importa se o som estava alto demais. Não importa se o ingresso foi caro e a banda tocou muito menos do que o previsto, numa qualidade duvidosa. Criticar chega até a ser caretice. Coisa de gente velha e chata.
E, enquanto isso, os organizadores e músicos amealham sem quinhão em cima de fórmulas prontas. Não é de se estranhar que os músicos se encham depois de certo tempo e as bandas acabem.
Parabéns àqueles que vão a shows em que os músicos tocam seis vezes a mesma música, em duas horas de apresentação. Quero aprender a me divertir com tão pouco como vocês fazem.
3 comentários:
Essa última parte do texto pareceu muito voltada ao Iron Maiden. Ou é impressao minha?
Ou pro AC/DC. Ou pro Metallica. Ou pro U2. E assim por diante.
Nunca comprei o argumento de que ACDC ficou ruim porque está sempre se repetindo — uma das mais difíceis façanhas de um artista é achar uma linguagem própria; uma revolução a cada obra não é critério de genialidade.
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